Derrotadas as ambições franco-napoleónicas, reuniu-se a Europa no
Congresso de Viena, aberto em Setembro de 1814. Ali se encontravam
representadas as principais potências: a Inglaterra, a Áustria, a
Prússia e a Rússia, mas também Portugal, a Espanha, a Suécia, bem
como a vencida França. Constituíam o «Comité dos Oito» que seria o
órgão principal do congresso. Os trabalhos prolongar-se-iam até ao
ano seguinte, sendo a Acta Final assinada em 9 de Junho (“Le
Congrès de Vienne”, Robert Ouvrard).


Junto
das assinaturas dos representantes da Áustria (Metternich), da
França (Talleyrand), da Inglaterra, da Prússia, da Rússia e da
Suécia, vinha a de D. Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de
Palmela, chefe da delegação portuguesa. A Espanha, que não o fez
de imediato, viria também a subscrever a Acta em 7 de Maio de
1817.
Do
Congresso
de Viena, haveria de nascer uma nova «nova ordem europeia»
que, sustentada no estabelecido na Acta Final, por quase meio
século regularia o continente e preservá-lo-ia da guerra.
A Acta do Congresso de Viena, no seu artº 105º, prescrevia:
«Les Puissances, reconnaissant la justice des réclamations
formées par S. A. R. le prince régent de Portugal e du Brésil, sur
la ville d’Olivenza et les autres territoires cédés à la Espagne
par le traité de Badajoz de 1801, et envisageant la restitution de
ces objets, comme une des mesures propres à assurer entre les deux
royaumes de la péninsule, cette bonne harmonie complète et stable
dont la conservation dans toutes les parties de l’Europe a été le
but constant de leurs arrangements, s’engagent formellement à
employer dans les voies de conciliation leurs efforts les plus
efficaces, afin que la rétrocession desdits territoires en faveur
du Portugal soi effectuée ; et les puissances reconnaissent,
autant qu’il dépend de chacune d’elles, que cet arrangement doit
avoir lieu au plus tôt».
Era, deste modo, formal e definitivamente afastada qualquer força
jurídica que se presumisse resultar de anteriores tratados que
entrassem em confronto com a nova «Nova Magna Carta Europeia».
Designadamente, um tal «Tratado de Badajoz» que a Portugal fora
extorquido, pela força conjunta das então aliadas França
napoleónica e Espanha burbónica, as quais, num dos actos mais
manhosos e torpes de todo o período das Campanhas Napoleónicas, e
sem qualquer pretexto ou motivo válido, mesmo face ao Direito
Internacional de então, tinham decidido submeter o nosso país.
Para tal, determinou-se o reino vizinho a invadir-nos, em 20 de
Maio de 1801, tomando-nos Olivença, Juromenha e muitas outras
povoações do Alto-Alentejo. Era a «Guerra das Laranjas»,
arquitectada por Manuel Godoy, «Príncipe da Paz», acto de guerra
aleivoso e traiçoeiro, desde logo por partir de potência «amiga e
vizinha».


Na
circunstância, subjugado pela desproporção de forças, Portugal foi
compelido a assinar o dito «Tratado de Badajoz» em 6 de Junho,
cedendo às exigências de Napoleão Bonaparte e de Carlos IV,
nomeadamente, no que toca à «amiga e vizinha» Espanha,
reconhecendo-lhe «em qualidade de conquista», a «Praça de
Olivença, seu território e povos desde o Guadiana»...
Olivença, terra então das mais entranhadamente portuguesas,
reconhecida como pertencente ao reino de Portugal pelo
Tratado de
Alcanizes, em 1297, juntamente com Almeida, Sabugal, Pinhel,
Campo Maior, Ouguela, Juromenha e outras mais povoações!...
Olivença que participara com toda a Nação Portuguesa na formação e
consolidação do Reino, nas glórias e misérias dos Descobrimentos,
na tragédia de Alcácer-Quibir, na Restauração!... Olivença que do
mesmo modo vivera o florescimento de uma cultura nacional, uma
língua, um Fernão Lopes, um Gil Vicente, um Camões...


Agora,
em 6 de Junho de 1801, na «confirmação» formal de um puro acto de
banditismo e latrocínio, simples e exemplar manifestação da «lei
do mais forte», era em tal terra, em Olivença, que se pretendia
apagar uma História, uma língua, uma tradição, uma cultura, uma
comunidade...
Mas certo é que, melhor ou pior, a diplomacia portuguesa conseguia
que a «Assembleia Geral» das potências europeias consagrasse, no
instrumento mais solene que produziu, que Espanha não tinha
legitimidade para reter Olivença, antes se reconhecia
«a
justiça das reclamações formuladas por S. A. R., o Príncipe
Regente de Portugal e do Brasil sobre a vila de Olivença e outros
territórios» e que as potências se obrigavam aos «seus mais
eficazes esforços a fim de que se efectue a retrocessão dos ditos
territórios a favor de Portugal»...
Repita-se: em 7 de Maio de 1817 também Espanha assinaria tal
tratado...
Decorridos 185 anos desde o seu reconhecimento, perante a
comunidade internacional, da ilegitimidade da sua posse sobre as
terras oliventinas e da justeza das reclamações portuguesas, certo
é que o Estado vizinho não soube honrar a sua palavra e, pior,
jamais soube ser digna do carácter altivo e nobre que, sempre,
pretende apresentar como lhe sendo intrínseco...


Ainda
recentemente (Janeiro de 2001), visitando o Presidente do Governo
de Espanha, o nosso País, entrevistado na imprensa portuguesa e
sendo-lhe lembrado, muito clara e incisivamente, que «há questões
que geram susceptibilidades (...) que se colocam há dezenas de
anos, como seja a dos limites fronteiriços, sobretudo no caso de
Olivença», faltou-lhe a ele a coragem que lhe permitisse
responder. Perorando sobre tudo o que, em sua ilustre opinião,
importava a Portugal e a Espanha, nunca e nada respondeu acerca de
Olivença. Com o desaforo típico de castelhano da Meseta, entendeu
antes dizer-nos, como se a questão fosse assim tão simples, que
«tudo isso não tem nada a ver com os velhos discursos de
reivindicações antiquadas, porque já não espelham a realidade
democrática». Observação esta (pasme-se!) depois de, na mesma
entrevista e com abundância, ter tomado posições diametralmente
opostas relativamente à reivindicação que o Estado que representa
vem efectuando relativamente a Gibraltar!
Tenha-se presente: Gibraltar, que foi por Castela «reconquistada
aos mouros» em 1462 e veio a ser cedida a Inglaterra, em 1713,
pelo Tratado de Utreque (cuja validade, face ao Direito
Internacional, nunca por ninguém foi posta em causa, nem por
Espanha), esteve na dependência de Espanha durante cerca de 250
anos, muito menos tempo do que aquele em que é britânico...


Entretanto,
em Olivença, ininterruptamente portuguesa, extorquida
«manu
militari», extorsão essa não reconhecida internacionalmente,
tudo, sejam a História, a cultura, as tradições, a língua, apesar
da brutal, persistente e insidiosa repressão castelhanizante (se
tudo se tivesse passado no século XX não haveria pejo em falar de
genocídio...), permanece, tanto no fundo como à superfície, pleno
de portugalidade!
Quer dizer, pretende o Estado espanhol convencer-nos que as
reivindicações de Portugal quanto a uma parcela do seu território,
militarmente ocupado por potência estrangeira, ocupação a que o
Direito das Nações não deu cobertura, se configuram como
«discursos antiquados», ao mesmo tempo que, despudoradamente,
defende que Gibraltar é «a única colónia na Europa» quando, face
ao Direito Internacional, é inquestionavelmente britânica!
Porquê a diferença? Porque Portugal e Espanha se constituem ambas
como democráticas? Porque Portugal e Espanha se integram na União
Europeia e na OTAN? E não se passa o mesmo, em ambas as
circunstâncias, com o Reino Unido? Significativo!
Está bem exposta perante a opinião pública portuguesa,
habitualmente tão inocente e crédula, designadamente no que toca
às relações entre estados, sejam eles vizinhos ou amigos,
afastados ou inimigos, que Espanha não tem qualquer rebuço em
sustentar os argumentos mais falaciosos, se forem para defesa dos
seus interesses, enquanto que nem sequer escuta os mais
pertinentes e válidos argumentos se jogarem contra si!...


Entretanto,
se do exposto se demonstra, quanto à «Questão de Olivença», a
incomodidade do tema para Espanha, bem como a sua falta de razão e
inexistência de argumentos a seu favor, simultaneamente, para
infelicidade nossa, se demonstra uma parecida incomodidade entre
as esferas governamentais portuguesas.
Infelicidade porque, não fazendo o Governo português saber a
Espanha, com determinação, que pretende e não desistirá de
readquirir a soberania de facto sobre Olivença, para isso
praticando os gestos mais apropriados, daí só advém desprestígio
para Portugal, tal como transmite ao Estado vizinho o mais claro
sinal de fraqueza. O Governo português, ao não assinalar e
repudiar a situação iníqua em que se encontra Olivença, ao não
agir com desembaraço em tal matéria, apresenta-se como se tudo
fosse resultado de uma qualquer dependência ou subserviência da
parte dos governantes portugueses relativamente ao poderoso Estado
vizinho...
Ainda assim, restará, para explicar a imobilidade e inoperância
das nossas elites, no que toca à defesa dos direitos de Portugal
sobre Olivença – sobre uma parte do território pátrio! -, uma
culpa mais prosaica e colectiva, a alvitrada por Oliveira Martins,
em 1879 (História de Portugal). Cite-se:
«Daí vem o caso, talvez único na Europa, de um povo que não só
desconhece o patriotismo, que não só ignora o sentimento
espontâneo de respeito e amor pelas suas tradições, pelas suas
instituições, pelos seus homens superiores; que não só vive de
copiar (...) de um modo servil e indiscreto; que não só não possui
uma alma social , mas se compraz em escarnecer de si próprio, com
os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco. Quando uma nação
se condena pela boca dos seus próprios filhos, é difícil, se não
impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a
consciência da dignidade colectiva».